Uma Casa no Fim do Mundo, do Michael Cunningham, é um daqueles livros tão bons e tão instigantes que apesar de suas 350 páginas, poderia ser lido em dois dias. Mas o livro é melhor do que isso, pois há o desejo de prolongar a leitura, de prolongar o tempo de convivência com a história.
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Com um artíficio narrativo bastante interessante, o livro revela a natureza dos personagens com tanta perfeição que, como diz uma amiga minha, tu sentes que poderia tomar um café com eles. Cunningham confia a narrativa a quatro persongens. Narrado, nas primeiras páginas, sob a ótica de Jonathan e Bobby, vemos a história paralela desses dois meninos até que eles finalmente se encontram e começam a partilhar uma amizade forte, obstinada, que é quase amor. O livro é narrado de uma forma tão realista, tão profunda e preocupada com todos os sentidos, com todas as cores, que em vários momentos não há como não se sentir literalmente dentro da cena.
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Em um momento, Jonathan narra uma ocasião em que ele e Bobby vão a beira de um rio, no início da primavera. O gelo mal derretera, mas Jonathan sente a necessidade de dar um mergulho, de ter um contato mais íntimo com Bobby, de ter uma aventura com ele; uma aventura que os unisse mais ainda. Que os unisse de uma maneira que nenhum dos dois conseguia entender. Jonathan então mergulha, Bobby não tem coragem, e fica olhando o amigo tirar as roupas e entrar. Jonathan não esperava que a água estivesse tão fria. Bobby, então, um pouco assustado com a falta de fôlego do amigo, entra no rio para arrancá-lo a força de lá. A cena é forte, densa, bem feita, seca e ao mesmo tempo emotiva, mas sem ser dramática. Digna de um grande narrador, como Michael Cunningham mostra ser.
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Quando a análise dos dois sobre sua própria relação passa a ser insuficiente para o leitor entender o complexo amor que os une, a história dá voz à Alice, mãe de Jonathan - que já percebendo que seu filho é homossexual - analisa a amizade sem a mesma pureza dos dois meninos.
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Cada voz no livro é única. No início de cada capítulo há uma divisão com o nome do personagem que vai narrar tal capítulo, mas depois de um tempo isso não é mais necessário, tamanha a maestria do autor em diferenciar a narração de Bobby da narração de Jonathan que por sua vez é também diferente da de Alice. Mais tarde, Clare se junta ao enredo. Jonathan, ao completar dezoito anos, sai da pequena cidade de Cleaveland para cursar a faculdade de Jornalismo em Nova York e lá vai desenvolver uma forte amizade com ela. Os dois moram juntos como se fossem casados, mas não são.
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Jonathan tem uma relação distante com Erich, um barman que sonha em ser ator. A relação dos dois, inicialmente, é baseada no sexo, mas depois, todas as tentativas de aprofundar esse relacionamento acabam não dando certo. Há um formalidade excessivo entre os dois. E as observações de Jonathan sobre como os dois ou sobre como ele tenta matar o seu auto-controle e se envolver com Erich são quase que um estudo de caso, tamanho o psicologismo do narrador.
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E o tempo vai passando sob os olhos desses personagens que vão amadurecendo, vão mudando, vão deixando outras crises lhes dominar a vida.
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Bobby permanece em Cleaveland, como se fosse um segundo filho de Alice - a mãe de Jonathan. E a trama principal da história se forma aí, quando Bobby vai para Nova York e passa a morar com Clare e com Jonathan.
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Eles começam a constituir uma espécie de família. Jonathan ama Bobby e Bobby ama Jonathan, uma amizade que transcende o nível da amizade. Clare ama os dois e os dois, por sua vez, amam Clare.
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Em um contexto cultural que ronda os anos 80, onde homens e mulheres de 40 anos relembram o Woodstock e a trilha sonora de todo jovem americano é feita por Jimi Hendrix, Bob Dylan e The Doors, vemos os personagens construíndo uma vida em cima de instintos, erros, paixões e tentanto manter um certo controle sobre os seus impulsos.
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A eterna discussão sobre ser ou não ser convencional. Os personagens passam pela adolescência achando que o não-convencionalismo está simplesmente na maneira de se vestir ou no uso de drogas, e ao longo da vida, após abandonar essa fase, percebem que aquilo nada tem a ver com convenções. As convenções são muito mais internas do que externas, elas vêm ou não na vida adulta e é nessa vida que eles não vão se identificar com o estilo "normal" de todo o cidadão americano. E ao mesmo tempo vão tentar conviver com a dúvida "e se as coisas fossem diferentes?"
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Jonathan luta por ter algo, uma vida própria, pois acredita todo o tempo que nunca vai conseguir consquitar uma. Clare, uma mulher forte e bastante original, se acha estranha demais, e questiona como seria ter uma vida convencional. Bobby é o mais apático, parece se adaptar em qualquer situação, mas muito mais por apatia do que por flexibilidade. Ele é o personagem mais fleumático, mais tranqüilo, mas em certos momentos, parece que é nessa fleuma que reside toda a sua insegurança; a apatia é sua fuga.
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Um livro inesquecível, de personagens muito bem feitos. Um livro sobre a construção de uma vida e sobre o que isso acarreta: e se construirmos nossa vida de uma maneira que achamos errada, quando poderemos voltar atrás? Poderemos voltar atrás? Ou o embalo de seguir vivendo de tal maneira é tão forte que não nos deixa, que não nos dá força para começar de novo?