domingo, maio 13, 2007

Uma Casa no Fim do Mundo

Uma Casa no Fim do Mundo, do Michael Cunningham, é um daqueles livros tão bons e tão instigantes que apesar de suas 350 páginas, poderia ser lido em dois dias. Mas o livro é melhor do que isso, pois há o desejo de prolongar a leitura, de prolongar o tempo de convivência com a história.
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Com um artíficio narrativo bastante interessante, o livro revela a natureza dos personagens com tanta perfeição que, como diz uma amiga minha, tu sentes que poderia tomar um café com eles. Cunningham confia a narrativa a quatro persongens. Narrado, nas primeiras páginas, sob a ótica de Jonathan e Bobby, vemos a história paralela desses dois meninos até que eles finalmente se encontram e começam a partilhar uma amizade forte, obstinada, que é quase amor. O livro é narrado de uma forma tão realista, tão profunda e preocupada com todos os sentidos, com todas as cores, que em vários momentos não há como não se sentir literalmente dentro da cena.
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Em um momento, Jonathan narra uma ocasião em que ele e Bobby vão a beira de um rio, no início da primavera. O gelo mal derretera, mas Jonathan sente a necessidade de dar um mergulho, de ter um contato mais íntimo com Bobby, de ter uma aventura com ele; uma aventura que os unisse mais ainda. Que os unisse de uma maneira que nenhum dos dois conseguia entender. Jonathan então mergulha, Bobby não tem coragem, e fica olhando o amigo tirar as roupas e entrar. Jonathan não esperava que a água estivesse tão fria. Bobby, então, um pouco assustado com a falta de fôlego do amigo, entra no rio para arrancá-lo a força de lá. A cena é forte, densa, bem feita, seca e ao mesmo tempo emotiva, mas sem ser dramática. Digna de um grande narrador, como Michael Cunningham mostra ser.
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Quando a análise dos dois sobre sua própria relação passa a ser insuficiente para o leitor entender o complexo amor que os une, a história dá voz à Alice, mãe de Jonathan - que já percebendo que seu filho é homossexual - analisa a amizade sem a mesma pureza dos dois meninos.
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Cada voz no livro é única. No início de cada capítulo há uma divisão com o nome do personagem que vai narrar tal capítulo, mas depois de um tempo isso não é mais necessário, tamanha a maestria do autor em diferenciar a narração de Bobby da narração de Jonathan que por sua vez é também diferente da de Alice. Mais tarde, Clare se junta ao enredo. Jonathan, ao completar dezoito anos, sai da pequena cidade de Cleaveland para cursar a faculdade de Jornalismo em Nova York e lá vai desenvolver uma forte amizade com ela. Os dois moram juntos como se fossem casados, mas não são.
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Jonathan tem uma relação distante com Erich, um barman que sonha em ser ator. A relação dos dois, inicialmente, é baseada no sexo, mas depois, todas as tentativas de aprofundar esse relacionamento acabam não dando certo. Há um formalidade excessivo entre os dois. E as observações de Jonathan sobre como os dois ou sobre como ele tenta matar o seu auto-controle e se envolver com Erich são quase que um estudo de caso, tamanho o psicologismo do narrador.
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E o tempo vai passando sob os olhos desses personagens que vão amadurecendo, vão mudando, vão deixando outras crises lhes dominar a vida.
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Bobby permanece em Cleaveland, como se fosse um segundo filho de Alice - a mãe de Jonathan. E a trama principal da história se forma aí, quando Bobby vai para Nova York e passa a morar com Clare e com Jonathan.
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Eles começam a constituir uma espécie de família. Jonathan ama Bobby e Bobby ama Jonathan, uma amizade que transcende o nível da amizade. Clare ama os dois e os dois, por sua vez, amam Clare.
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Em um contexto cultural que ronda os anos 80, onde homens e mulheres de 40 anos relembram o Woodstock e a trilha sonora de todo jovem americano é feita por Jimi Hendrix, Bob Dylan e The Doors, vemos os personagens construíndo uma vida em cima de instintos, erros, paixões e tentanto manter um certo controle sobre os seus impulsos.
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A eterna discussão sobre ser ou não ser convencional. Os personagens passam pela adolescência achando que o não-convencionalismo está simplesmente na maneira de se vestir ou no uso de drogas, e ao longo da vida, após abandonar essa fase, percebem que aquilo nada tem a ver com convenções. As convenções são muito mais internas do que externas, elas vêm ou não na vida adulta e é nessa vida que eles não vão se identificar com o estilo "normal" de todo o cidadão americano. E ao mesmo tempo vão tentar conviver com a dúvida "e se as coisas fossem diferentes?"
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Jonathan luta por ter algo, uma vida própria, pois acredita todo o tempo que nunca vai conseguir consquitar uma. Clare, uma mulher forte e bastante original, se acha estranha demais, e questiona como seria ter uma vida convencional. Bobby é o mais apático, parece se adaptar em qualquer situação, mas muito mais por apatia do que por flexibilidade. Ele é o personagem mais fleumático, mais tranqüilo, mas em certos momentos, parece que é nessa fleuma que reside toda a sua insegurança; a apatia é sua fuga.
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Um livro inesquecível, de personagens muito bem feitos. Um livro sobre a construção de uma vida e sobre o que isso acarreta: e se construirmos nossa vida de uma maneira que achamos errada, quando poderemos voltar atrás? Poderemos voltar atrás? Ou o embalo de seguir vivendo de tal maneira é tão forte que não nos deixa, que não nos dá força para começar de novo?

terça-feira, maio 01, 2007

Relendo-se

Na primeira página de O Grande Gatsby, do Fitzgerald tem um parágrafo ou nem isso, muito interessante. Todo o livro é interessante, óbvio, mas não pretendo aqui falar do livro e sim desse trecho.
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É importante ler em qualquer época da vida, mas - quando mais jovem - me dava conta de que alguns livros que eu lia na adolescência, teriam de ser relidos mais tarde. Pensava que o motivo estava ligado com adquirir estruturas literárias mais complexas, ou seja, ler livros que tivessem estruturas com as quais eu não estava acostumado. Ou ainda, pensava num segundo motivo: ser jovem demasiado para determinada história. Os dois motivos fazem sentido, devemos reler certos livros anos depois e eles nos serão utéis de formas diversas das que foram no passado.
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Mas, nesse trecho de O Grande Gatsby, há um motivo bem mais forte para se reler as obras que lemos na juventude. Um motivo que mostra um "erro" comum na leitura de qualquer jovem que ainda não tem bem claro para si mesmo quem é. A típica, nas palavras de Erik Erickson, crise de identidade.
Eis o trecho:
"... as revelações íntimas dos jovens ou, pelo menos, os termos em que eles as exprimem, têm, habitualmente, muito de plágio e, o que é pior, de plágios desfigurados por evidentes supressões".
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Quem não lembra de fazer isso? Todos nós, quando jovens, somos leitores daquilo que queremos ser, não que - adultos - façamos obrigatóriamente diferente disso, mas a intensidade é bem menor, acredito, e há um maior interesse na verdade como ela é e não na verdade como nos convém.