sábado, abril 28, 2007

Arquitetura

Sou daqueles que defende o planejamento prévio. Planeja-se antes de começar a escrever um texto. Planeja-se onde vai cada idéia, cada palavra, cada mínimo detalhe. Dizem que isso é chato, é técnico e que o que realmente importa é a criação. Aí está o erro. Planejar já é a própria criação.
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Indico efusivamente aos meus alunos de produção textual que planejem suas redações antes de qualquer coisa. Por experiência, sei que isso funciona muito bem com quem tem grandes dificuldades ao escrever, mas por gosto e intuição, acho que planejar torna qualquer texto melhor. Se um texto já é bom sem um plano, ele vai ficar ainda melhor se for feito, delicadamente, um esboço anterior. As pessoas num geral tem a mania de achar que tudo o que não é espontâneo, tudo o que é pensando não é livre. Mas se eu obedeço as minhas próprias ordens eu não deixo de ser livre, deixo? Acho que não, pelo contrário, isso me torna dono de mim mesmo. Já estou falando de outras coisas talvez, mas uma citação de P.G WodeHouse casa esse comentário que se extende, pretensiosamente, a vida, com o método de criação:
"... o bom da história é que você deve criar restrições para si mesmo, mas deve se sentir livre, no curso da redação, para mudá-las".
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Tudo o que eu escrevo é planejado, mesmo hoje, depois de já ter uma grande intimidade com a escrita. E dentro do plano, já estou dentro da história, dos argumentos ou seja lá o que for que eu estiver escrevendo. Já estou dentro; arquitetando tudo. E é quase tão prazeroso quanto o próprio ato de escrita. Não sei qual é a força, ainda hoje, da idéia romântica de que toda a produção artística é uma mágica que toma, domina e quase estupra o artista fazendo-o criar, inspirando-o milagrosamente rumo ao resultado final. Fiquei muito feliz ao ler "Ensaios sobre Literatura" do Umberto Eco, pois lá ele revela que todos os seus romances tem meses de planejamento antes de realmente serem postos em prática. Para escrever o "Nome da Rosa", diz, chegou a fazer mapas de como seria o local onde se passa a história.
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A idéia de comparar a escrita com a vida muito me agrada. Compara-se todo o tempo a vida com a arte, a realidade com a ficção, etc. Isso já é quase um chavão. Daí vem aquela famosa frase: "Qual a diferença entre a ficção e a realidade?" Resposta: "A ficção tem de fazer sentido". Mas o que é interessante de fato é compar a criação com a vida. Começamos a escrever intuitivamente, sempre ou quase sempre. E no início e depois disso e talvez eternamente, escrevemos seguindo um modelo, copiando alguém. A medida que o tempo passa a nossa própria voz vai se tornando mais forte que os modelos, e eles - um dia - quase que desaparecem por completo. Muito embora, nunca desapareçam. Inicialmente, escrevemos qualquer coisa, sem pensar. Depois, a preocupação com a qualidade e a consciência de que deve existir uma qualidade vai nos tornando mais cautelosos, mais detalhistas, exigentes, chatos. E aos poucos, percebemos que tudo é um longo caminho rumo a uma tentativa de perfeição. Uma tentativa de podar/criar um estilo próprio. Passamos por várias crises até a estabilização completa. Um escritor tem um projeto estético para sua obra, nós devemos ter um projeto estético para nossa vida, e acho que todos temos.
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Só gostaria de ter tanto controle sobre os rumos da minha vida quanto tenho sobre os rumos do que escrevo. Talvez seja esse o meu projeto estético: o controle. Já tenho grande parte, pois para mim é aí que reside toda a liberdade, no auto-controle. O pensamento budista está centrado nessa idéia. Para atingir a chamada iluminação, o homem deve ter pleno e absoluto controle sobre si próprio.
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Assim é na vida e assim é na escrita: pensam - a maioria - que o planejamento prévio, o controle não são sinônimos de liberdade. Ora, o que é a maldita liberdade? Talvez deturpem o conceito ao extremo. Ser indiferentemente espontâneo e desordenado é o mais baixo nível de liberdade, acho que é de Descartes essa idéia. E, para Kant, ser livre é ser autônomo, é dar a si mesmo as regras a serem seguidas.
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Agora, a frase do WodeHouse ganha o duplo sentido, o sentido que eu queria no início do texto, e a repito para que seja lida com esse olhar ambíguo: "...o bom da história é que você deve criar restrições para si mesmo, mas deve se sentir livre, no curso da redação, para mudá-las".

sexta-feira, abril 20, 2007

Você quer rebelar-se contra a sociedade?

Decidido a aumentar minha carga de literatura contemporânea, já que a maioria dos autores que leio são da primeira metade do século XX para baixo, comecei a ler "Casei com um comunista", do norte-americano Philip Roth. O cara é ótimo, e fico feliz por ter lido apenas três livros dele. Assim, sei que ainda terei o prazer de ler muitos outros.
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Estou no início ainda, mas espiando o final aleatóriamente, encontrei um pequeno trecho que me chamou a atenção. O trecho era: (...) Você quer rebelar-se contra a sociedade? Vou lhe dizer como fazer isso: Escreva bem". Fechei o livro e fiquei pensando em que implica essa sentença em 2007. O que é rebelar-se contra a sociedade hoje? E, obviamente, fiquei decepcionado com a resposta.
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Hoje, quando vejo adolescentes ou jovens adultos se rebelarem não vejo muita coisa. Vejo uma típica rebeldia sem muito propósito. Vestimentas para chamar a atenção, um falso não-estilo, uma falsa não-preocupação, vejo uma ode a não-responsabilidade, pois toda a responsabilidade é uma prisão, vejo preconceitos, recalques, palavras e atitudes obstinadamente opostas a tudo o que for vigente. A obstinação em crer e seguir tudo aquilo que é vigente é tão burra e cega quanto a obstinação em descrer e não seguir tudo aquilo que é vigente.
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Esse comportamento não é nada. Hoje, isso não é droga nenhuma. Hoje, rebelar-se contra a sociedade (já que para alguns isso parece tão importante) é simplesmente pensar. É simplesmente ler. E como diz o personagem de Roth: Escrever bem. Ninguém pensa no século XXI, ninguém fala, todos só reproduzem. Não vejo nada na rebeldia de hoje. Ela também é reprodução.
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Trecho integral:
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"Arte como arma? - disse ele, a palavra "arma" carregada de desprezo e ela mesma como uma arma. - Arte como a tomada da posição correta com relação a tudo? Arte como o advogado das coisas boas? Quem foi que ensinou tudo isso a você? Quem ensinou que arte são slogans? Quem ensinou que a arte está a serviço do povo? A arte está a serviço da arte, senão não existe arte nenhuma digna da atenção de ninguém. Qual é a razão para escrever literatura séria, senhor Zuckerman? Derrotar os inimigos do controle de preços? A razão para escrever literatura séria é escrever literatura séria. Você quer rebelar-se contra a sociedade? Vou lhe dizer como: Escreva bem. Quer abraçar uma causa perdida? (...) Então lute pela palavra. Não a palavra bombástica, a palavra inspiradora, não a palavra pró-isso e anti-aquilo, não a palavra que alardeia para as pessoas respeitáveis que você é um sujeito maravilhoso, admirável, compassivo, sempre do lado dos oprimidos e humilhados. Nada disso, lute sim pela palavra que afirma aos poucos alfabetizados condenados a viver na América, que você está do lado da palavra".

sábado, abril 14, 2007

Desespero

Ele repassou mais uma vez o trajeto irregular que fazia todas as noites e com um ódio que provavelmente não era capaz de perceber, disfarçado debaixo de uma quase confortável aparência de desânimo, saiu do hotel barato rumo a uma noite fria e insolitamente escura. Onde estaria ela?, perguntava-se.

Subiu a carroça, assoviou para os cavalos com breve respeito e ajeitou o longo casaco de lã sobre as pernas. Seguiu até parar na frente de um hotel de luxo; daqueles que mesmo ao olharmos de perto parecem fazer parte de uma altiva fotografia em sépia. Parou ali, por hábito ou por obrigação ou será que os hábitos não se tornam obrigações? Parou e se fazia a mesma pergunta. A mesma concreta pergunta. Sentia algo impalpavelmente doloroso, mas era ignorante demais para realmente compreender a dor. O mundo não era um apelo a sua imaginação. Onde estaria ela?, perguntava-se.

Distraído com a massa concreta de seus sentimentos e tentando explicá-los com o seu ínfimo vocabulário filosófico, assustou-se quando percebeu um passageiro subir. Deu-lhe boa noite, e o homem de barba ruiva respondeu, em tom alegre. Apenas.

Apenas. E o silêncio-só começou a incomodar este senhor que pouco usava as palavras, pois pouco as conhecia. Falou, dirigindo-se ao passageiro-barba-ruiva, da noite, da lua, do frio e da filha. A filha, ali, entre o trivial, entre o frio e a lua. O passageiro logo caiu na apatia das viagens de veículo. Alguma pequena parte de sua atenção estava voltada para o cocheiro e talvez depois ele se lembrasse que o homem falava grosseiramente da maldita moça que colocara no mundo. Como a criou com cuidados extremosos, sempre mais do que suficientes.

“Vou descer aqui mesmo, chefe” – disse o passageiro de barba ruiva quando a carroça parou perto de uma rua escura, onde a única iluminação se encontrava em uma grande e ruidosa casa de três andares.
“Sabe o nome da minha pequena filha?”
“Tenha uma boa noite”.
Ali mesmo, num tempo compreendido entre os devaneios deste personagem que se pretende ser o protagonista, mesmo sendo tão apático e inexpressivo e tão destituído de mundo interior, três homens bem trajados subiram ao coche. Bêbados. Pediram para ir ao bar mais próximo e quando ouviram falar da filha daquele homem:
“Se donzela ela for.... Eu sei do que ela precisa” – disse um dos homens, bêbado, e com um forte sotaque alemão, cantarolando um discurso artificialmente poético.

Os três riem e nosso homem não chora. Cala. Um pai odiado, lamentável, que não entende o porquê de tanto ódio contra ele. Está ali, a trabalhar sem motivo, vendo as lascívias da noite, vendo as injustiças escuras.

“Boa noite” – Era uma senhora ultrapassada, com cara mimosa, porém de feições duras. Anunciou aonde desejava ser entregue.
“A menina tem dezoito, sabe? Se chama Arabela, e é realmente muito bonita, sabe? A mãe sempre quis que a gente chamasse nossa pequena assim. Ela morreu há dois anos. Ela, digo, a mãe. A mãe da minha menina”.

A carroça pulava com exagero por entre as pedras. Parou e logo seguiu, rápida por entre o vento frio da noite.

“Não sei, daí, o que me deu ontem. Foi como se eu estivesse fora de mim. Ela voltou para casa tarde, mais tarde ainda do que eu. Eu estava dirigindo essa velha carroça, sabe? Ela saiu com aquela amiga, veio de vestido novo e cara borrada. Só puta pinta a cara daquele jeito. E ela não estava horrível por parecer uma puta. Ah, não. Na verdade, ela parecia uma mulher rica. Ah, como isso me causou dor. Uma rica. Ah. Me descontrolei, sabe? Isso sempre acontece, eu acho. Não sei o que me deu. Perdi o controle. Assim foi com a mãe dela. Teve uma noite em que eu perdi o controle”.

Aliviado – depois de contar sua angústia, depois de sua confissão – ele não conseguia mais lembrar se havia parado para a senhora descer ou se ela ainda estava no banco, ali atrás, o escutando. Como resposta, sentiu apenas o vento gelado em seu pescoço. E continuou:

“Eu já falei como Arabela sorria?... e, ah, como ela era feliz... como...”.
Ele seguiu, ainda mais veloz, com os negros cavalos puxando a carroça. Falava da filha, dirigia e sentia muito frio. Ele falava, falava... E optou, depois de forte resistência, não olhar para o banco de trás.
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Acho que escrevi esse conto há uns três anos, talvez quatro, e o achei escondido numa gaveta, dentro de um saco plástico. Imediatamente lembrei de um comentário feito sobre ele, na época em que algumas pessoas o leram. Disseram que o conto era bom, mas que podia se passar numa geografia mais "nossa", talvez mais brasileira, mais gaúcha.
Não sei o que me motivou a escrever um conto tão antigo e com uma geografia que muito provavelmente é a européia, mas lembro que ao iniciar esta histórinha, eu desejava fazer um conto sutil. Um algo sem a expressão direta de nada. E lembro também que eu fui "inspirado" por um conto do Tchekhov, chamado Angústia - Para quem contar minha tristeza? Talvez até seja um caso de pastiche; vou reler o Tchekhov para descobrir.