domingo, agosto 19, 2007

Classificados

O verão é a estação em que as manhãs nascem prematuras e quem sai de casa são os pais de crianças que necessitam de sol, necessitam da luz comum, pois não enxergam a devassidão de si próprios. Quem sai de casa são as esposas entediadas e os poodles histéricos, pois só os poodles são histéricos, e os atletas que não conhecemos e os homens para quem a noite é um limite. As pessoas do verão são as felizes, são as que gostam do calor humano, são as que têm medo do recolhimento das temperaturas baixas e do silêncio acompanhado de chá-quente que as faz pensar. São aquelas do amor ao próximo que acham o verão mais justo e são os solitários que temem a falta de hormônios debaixo das cobertas.
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Os que, nessas manhãs prematuras, saem ainda quando o céu é meio-dia meia-noite são os trabalhadores-gente-honesta, os que saem de carro às dez da manhã, quando o verão é febril, são os burgueses-filhos-da-puta. Sem falar nos que dormem até meio-dia, para esses, deve-se compor um novo dicionário.
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A Zona Norte é a Zona Cinza. A Zona Sul é distante. As mulheres de olhos verdes e boina grená são as intelectuais e as de unhas pintadas são meras-meras. Matisse é fútil, Picasso é político. Os arrogantes são do mal, os humildes vão pro céu.
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Proust é dos aristocratas, Kafka é dos loucos, o que importa são os modernistas. Dentre os professores existem também diversos tipos: os que são realmente bons são egocêntricos demais, por isso são bons, os ruins são os burros e os mais ou menos são os cansados. Quem se preocupa demais com a aparência não pode ser inteligente, quem usa gola alta é gay e quem tem as costeletas grandes fuma maconha.
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Sépia é por demais preocupação com a forma, pedra negra é mais primordial. Os russos são loucos, os americanos são tolos e os brasileiros são crentes. Os Europeus são os melhores. O Ocidente é frenético e o Oriente é pacífico. Os que assistem filmes Hollywoodianos não entendem Dostoiévski. Os que não gostam de matemática fazem Letras e os que odeiam literatura são idiotas.
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Os que moram no Centro são cinzas, os que moram no Bom Fim, judeus, quem mora no Moinhos é ricaço. Quem vai ao Praia de Belas é pobre, quem vai no Iguatemi é verde, as que vão no Moinhos são peruas. Os da Lima e Silva são uns, os da Padre Chagas são outros. Quem faz Administração são os que não sabem o que fazer, quem faz Biologia são vestibulandos frustrados com a Medicina. Quem gosta de mulher é homem ou lésbica ou bi, quem gosta de homem é mulher, ou gay ou bi, quem gosta de crianças é o Michael Jackson, quem gosta apanhar é sadomazô, quem gosta de tudo é o pansexual e quem não sabe porra nenhuma é interdisciplinar. Ah, e quem é bonitinho só pode ser ordinário.

domingo, maio 13, 2007

Uma Casa no Fim do Mundo

Uma Casa no Fim do Mundo, do Michael Cunningham, é um daqueles livros tão bons e tão instigantes que apesar de suas 350 páginas, poderia ser lido em dois dias. Mas o livro é melhor do que isso, pois há o desejo de prolongar a leitura, de prolongar o tempo de convivência com a história.
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Com um artíficio narrativo bastante interessante, o livro revela a natureza dos personagens com tanta perfeição que, como diz uma amiga minha, tu sentes que poderia tomar um café com eles. Cunningham confia a narrativa a quatro persongens. Narrado, nas primeiras páginas, sob a ótica de Jonathan e Bobby, vemos a história paralela desses dois meninos até que eles finalmente se encontram e começam a partilhar uma amizade forte, obstinada, que é quase amor. O livro é narrado de uma forma tão realista, tão profunda e preocupada com todos os sentidos, com todas as cores, que em vários momentos não há como não se sentir literalmente dentro da cena.
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Em um momento, Jonathan narra uma ocasião em que ele e Bobby vão a beira de um rio, no início da primavera. O gelo mal derretera, mas Jonathan sente a necessidade de dar um mergulho, de ter um contato mais íntimo com Bobby, de ter uma aventura com ele; uma aventura que os unisse mais ainda. Que os unisse de uma maneira que nenhum dos dois conseguia entender. Jonathan então mergulha, Bobby não tem coragem, e fica olhando o amigo tirar as roupas e entrar. Jonathan não esperava que a água estivesse tão fria. Bobby, então, um pouco assustado com a falta de fôlego do amigo, entra no rio para arrancá-lo a força de lá. A cena é forte, densa, bem feita, seca e ao mesmo tempo emotiva, mas sem ser dramática. Digna de um grande narrador, como Michael Cunningham mostra ser.
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Quando a análise dos dois sobre sua própria relação passa a ser insuficiente para o leitor entender o complexo amor que os une, a história dá voz à Alice, mãe de Jonathan - que já percebendo que seu filho é homossexual - analisa a amizade sem a mesma pureza dos dois meninos.
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Cada voz no livro é única. No início de cada capítulo há uma divisão com o nome do personagem que vai narrar tal capítulo, mas depois de um tempo isso não é mais necessário, tamanha a maestria do autor em diferenciar a narração de Bobby da narração de Jonathan que por sua vez é também diferente da de Alice. Mais tarde, Clare se junta ao enredo. Jonathan, ao completar dezoito anos, sai da pequena cidade de Cleaveland para cursar a faculdade de Jornalismo em Nova York e lá vai desenvolver uma forte amizade com ela. Os dois moram juntos como se fossem casados, mas não são.
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Jonathan tem uma relação distante com Erich, um barman que sonha em ser ator. A relação dos dois, inicialmente, é baseada no sexo, mas depois, todas as tentativas de aprofundar esse relacionamento acabam não dando certo. Há um formalidade excessivo entre os dois. E as observações de Jonathan sobre como os dois ou sobre como ele tenta matar o seu auto-controle e se envolver com Erich são quase que um estudo de caso, tamanho o psicologismo do narrador.
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E o tempo vai passando sob os olhos desses personagens que vão amadurecendo, vão mudando, vão deixando outras crises lhes dominar a vida.
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Bobby permanece em Cleaveland, como se fosse um segundo filho de Alice - a mãe de Jonathan. E a trama principal da história se forma aí, quando Bobby vai para Nova York e passa a morar com Clare e com Jonathan.
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Eles começam a constituir uma espécie de família. Jonathan ama Bobby e Bobby ama Jonathan, uma amizade que transcende o nível da amizade. Clare ama os dois e os dois, por sua vez, amam Clare.
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Em um contexto cultural que ronda os anos 80, onde homens e mulheres de 40 anos relembram o Woodstock e a trilha sonora de todo jovem americano é feita por Jimi Hendrix, Bob Dylan e The Doors, vemos os personagens construíndo uma vida em cima de instintos, erros, paixões e tentanto manter um certo controle sobre os seus impulsos.
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A eterna discussão sobre ser ou não ser convencional. Os personagens passam pela adolescência achando que o não-convencionalismo está simplesmente na maneira de se vestir ou no uso de drogas, e ao longo da vida, após abandonar essa fase, percebem que aquilo nada tem a ver com convenções. As convenções são muito mais internas do que externas, elas vêm ou não na vida adulta e é nessa vida que eles não vão se identificar com o estilo "normal" de todo o cidadão americano. E ao mesmo tempo vão tentar conviver com a dúvida "e se as coisas fossem diferentes?"
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Jonathan luta por ter algo, uma vida própria, pois acredita todo o tempo que nunca vai conseguir consquitar uma. Clare, uma mulher forte e bastante original, se acha estranha demais, e questiona como seria ter uma vida convencional. Bobby é o mais apático, parece se adaptar em qualquer situação, mas muito mais por apatia do que por flexibilidade. Ele é o personagem mais fleumático, mais tranqüilo, mas em certos momentos, parece que é nessa fleuma que reside toda a sua insegurança; a apatia é sua fuga.
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Um livro inesquecível, de personagens muito bem feitos. Um livro sobre a construção de uma vida e sobre o que isso acarreta: e se construirmos nossa vida de uma maneira que achamos errada, quando poderemos voltar atrás? Poderemos voltar atrás? Ou o embalo de seguir vivendo de tal maneira é tão forte que não nos deixa, que não nos dá força para começar de novo?

terça-feira, maio 01, 2007

Relendo-se

Na primeira página de O Grande Gatsby, do Fitzgerald tem um parágrafo ou nem isso, muito interessante. Todo o livro é interessante, óbvio, mas não pretendo aqui falar do livro e sim desse trecho.
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É importante ler em qualquer época da vida, mas - quando mais jovem - me dava conta de que alguns livros que eu lia na adolescência, teriam de ser relidos mais tarde. Pensava que o motivo estava ligado com adquirir estruturas literárias mais complexas, ou seja, ler livros que tivessem estruturas com as quais eu não estava acostumado. Ou ainda, pensava num segundo motivo: ser jovem demasiado para determinada história. Os dois motivos fazem sentido, devemos reler certos livros anos depois e eles nos serão utéis de formas diversas das que foram no passado.
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Mas, nesse trecho de O Grande Gatsby, há um motivo bem mais forte para se reler as obras que lemos na juventude. Um motivo que mostra um "erro" comum na leitura de qualquer jovem que ainda não tem bem claro para si mesmo quem é. A típica, nas palavras de Erik Erickson, crise de identidade.
Eis o trecho:
"... as revelações íntimas dos jovens ou, pelo menos, os termos em que eles as exprimem, têm, habitualmente, muito de plágio e, o que é pior, de plágios desfigurados por evidentes supressões".
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Quem não lembra de fazer isso? Todos nós, quando jovens, somos leitores daquilo que queremos ser, não que - adultos - façamos obrigatóriamente diferente disso, mas a intensidade é bem menor, acredito, e há um maior interesse na verdade como ela é e não na verdade como nos convém.

sábado, abril 28, 2007

Arquitetura

Sou daqueles que defende o planejamento prévio. Planeja-se antes de começar a escrever um texto. Planeja-se onde vai cada idéia, cada palavra, cada mínimo detalhe. Dizem que isso é chato, é técnico e que o que realmente importa é a criação. Aí está o erro. Planejar já é a própria criação.
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Indico efusivamente aos meus alunos de produção textual que planejem suas redações antes de qualquer coisa. Por experiência, sei que isso funciona muito bem com quem tem grandes dificuldades ao escrever, mas por gosto e intuição, acho que planejar torna qualquer texto melhor. Se um texto já é bom sem um plano, ele vai ficar ainda melhor se for feito, delicadamente, um esboço anterior. As pessoas num geral tem a mania de achar que tudo o que não é espontâneo, tudo o que é pensando não é livre. Mas se eu obedeço as minhas próprias ordens eu não deixo de ser livre, deixo? Acho que não, pelo contrário, isso me torna dono de mim mesmo. Já estou falando de outras coisas talvez, mas uma citação de P.G WodeHouse casa esse comentário que se extende, pretensiosamente, a vida, com o método de criação:
"... o bom da história é que você deve criar restrições para si mesmo, mas deve se sentir livre, no curso da redação, para mudá-las".
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Tudo o que eu escrevo é planejado, mesmo hoje, depois de já ter uma grande intimidade com a escrita. E dentro do plano, já estou dentro da história, dos argumentos ou seja lá o que for que eu estiver escrevendo. Já estou dentro; arquitetando tudo. E é quase tão prazeroso quanto o próprio ato de escrita. Não sei qual é a força, ainda hoje, da idéia romântica de que toda a produção artística é uma mágica que toma, domina e quase estupra o artista fazendo-o criar, inspirando-o milagrosamente rumo ao resultado final. Fiquei muito feliz ao ler "Ensaios sobre Literatura" do Umberto Eco, pois lá ele revela que todos os seus romances tem meses de planejamento antes de realmente serem postos em prática. Para escrever o "Nome da Rosa", diz, chegou a fazer mapas de como seria o local onde se passa a história.
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A idéia de comparar a escrita com a vida muito me agrada. Compara-se todo o tempo a vida com a arte, a realidade com a ficção, etc. Isso já é quase um chavão. Daí vem aquela famosa frase: "Qual a diferença entre a ficção e a realidade?" Resposta: "A ficção tem de fazer sentido". Mas o que é interessante de fato é compar a criação com a vida. Começamos a escrever intuitivamente, sempre ou quase sempre. E no início e depois disso e talvez eternamente, escrevemos seguindo um modelo, copiando alguém. A medida que o tempo passa a nossa própria voz vai se tornando mais forte que os modelos, e eles - um dia - quase que desaparecem por completo. Muito embora, nunca desapareçam. Inicialmente, escrevemos qualquer coisa, sem pensar. Depois, a preocupação com a qualidade e a consciência de que deve existir uma qualidade vai nos tornando mais cautelosos, mais detalhistas, exigentes, chatos. E aos poucos, percebemos que tudo é um longo caminho rumo a uma tentativa de perfeição. Uma tentativa de podar/criar um estilo próprio. Passamos por várias crises até a estabilização completa. Um escritor tem um projeto estético para sua obra, nós devemos ter um projeto estético para nossa vida, e acho que todos temos.
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Só gostaria de ter tanto controle sobre os rumos da minha vida quanto tenho sobre os rumos do que escrevo. Talvez seja esse o meu projeto estético: o controle. Já tenho grande parte, pois para mim é aí que reside toda a liberdade, no auto-controle. O pensamento budista está centrado nessa idéia. Para atingir a chamada iluminação, o homem deve ter pleno e absoluto controle sobre si próprio.
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Assim é na vida e assim é na escrita: pensam - a maioria - que o planejamento prévio, o controle não são sinônimos de liberdade. Ora, o que é a maldita liberdade? Talvez deturpem o conceito ao extremo. Ser indiferentemente espontâneo e desordenado é o mais baixo nível de liberdade, acho que é de Descartes essa idéia. E, para Kant, ser livre é ser autônomo, é dar a si mesmo as regras a serem seguidas.
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Agora, a frase do WodeHouse ganha o duplo sentido, o sentido que eu queria no início do texto, e a repito para que seja lida com esse olhar ambíguo: "...o bom da história é que você deve criar restrições para si mesmo, mas deve se sentir livre, no curso da redação, para mudá-las".

sexta-feira, abril 20, 2007

Você quer rebelar-se contra a sociedade?

Decidido a aumentar minha carga de literatura contemporânea, já que a maioria dos autores que leio são da primeira metade do século XX para baixo, comecei a ler "Casei com um comunista", do norte-americano Philip Roth. O cara é ótimo, e fico feliz por ter lido apenas três livros dele. Assim, sei que ainda terei o prazer de ler muitos outros.
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Estou no início ainda, mas espiando o final aleatóriamente, encontrei um pequeno trecho que me chamou a atenção. O trecho era: (...) Você quer rebelar-se contra a sociedade? Vou lhe dizer como fazer isso: Escreva bem". Fechei o livro e fiquei pensando em que implica essa sentença em 2007. O que é rebelar-se contra a sociedade hoje? E, obviamente, fiquei decepcionado com a resposta.
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Hoje, quando vejo adolescentes ou jovens adultos se rebelarem não vejo muita coisa. Vejo uma típica rebeldia sem muito propósito. Vestimentas para chamar a atenção, um falso não-estilo, uma falsa não-preocupação, vejo uma ode a não-responsabilidade, pois toda a responsabilidade é uma prisão, vejo preconceitos, recalques, palavras e atitudes obstinadamente opostas a tudo o que for vigente. A obstinação em crer e seguir tudo aquilo que é vigente é tão burra e cega quanto a obstinação em descrer e não seguir tudo aquilo que é vigente.
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Esse comportamento não é nada. Hoje, isso não é droga nenhuma. Hoje, rebelar-se contra a sociedade (já que para alguns isso parece tão importante) é simplesmente pensar. É simplesmente ler. E como diz o personagem de Roth: Escrever bem. Ninguém pensa no século XXI, ninguém fala, todos só reproduzem. Não vejo nada na rebeldia de hoje. Ela também é reprodução.
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Trecho integral:
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"Arte como arma? - disse ele, a palavra "arma" carregada de desprezo e ela mesma como uma arma. - Arte como a tomada da posição correta com relação a tudo? Arte como o advogado das coisas boas? Quem foi que ensinou tudo isso a você? Quem ensinou que arte são slogans? Quem ensinou que a arte está a serviço do povo? A arte está a serviço da arte, senão não existe arte nenhuma digna da atenção de ninguém. Qual é a razão para escrever literatura séria, senhor Zuckerman? Derrotar os inimigos do controle de preços? A razão para escrever literatura séria é escrever literatura séria. Você quer rebelar-se contra a sociedade? Vou lhe dizer como: Escreva bem. Quer abraçar uma causa perdida? (...) Então lute pela palavra. Não a palavra bombástica, a palavra inspiradora, não a palavra pró-isso e anti-aquilo, não a palavra que alardeia para as pessoas respeitáveis que você é um sujeito maravilhoso, admirável, compassivo, sempre do lado dos oprimidos e humilhados. Nada disso, lute sim pela palavra que afirma aos poucos alfabetizados condenados a viver na América, que você está do lado da palavra".

sábado, abril 14, 2007

Desespero

Ele repassou mais uma vez o trajeto irregular que fazia todas as noites e com um ódio que provavelmente não era capaz de perceber, disfarçado debaixo de uma quase confortável aparência de desânimo, saiu do hotel barato rumo a uma noite fria e insolitamente escura. Onde estaria ela?, perguntava-se.

Subiu a carroça, assoviou para os cavalos com breve respeito e ajeitou o longo casaco de lã sobre as pernas. Seguiu até parar na frente de um hotel de luxo; daqueles que mesmo ao olharmos de perto parecem fazer parte de uma altiva fotografia em sépia. Parou ali, por hábito ou por obrigação ou será que os hábitos não se tornam obrigações? Parou e se fazia a mesma pergunta. A mesma concreta pergunta. Sentia algo impalpavelmente doloroso, mas era ignorante demais para realmente compreender a dor. O mundo não era um apelo a sua imaginação. Onde estaria ela?, perguntava-se.

Distraído com a massa concreta de seus sentimentos e tentando explicá-los com o seu ínfimo vocabulário filosófico, assustou-se quando percebeu um passageiro subir. Deu-lhe boa noite, e o homem de barba ruiva respondeu, em tom alegre. Apenas.

Apenas. E o silêncio-só começou a incomodar este senhor que pouco usava as palavras, pois pouco as conhecia. Falou, dirigindo-se ao passageiro-barba-ruiva, da noite, da lua, do frio e da filha. A filha, ali, entre o trivial, entre o frio e a lua. O passageiro logo caiu na apatia das viagens de veículo. Alguma pequena parte de sua atenção estava voltada para o cocheiro e talvez depois ele se lembrasse que o homem falava grosseiramente da maldita moça que colocara no mundo. Como a criou com cuidados extremosos, sempre mais do que suficientes.

“Vou descer aqui mesmo, chefe” – disse o passageiro de barba ruiva quando a carroça parou perto de uma rua escura, onde a única iluminação se encontrava em uma grande e ruidosa casa de três andares.
“Sabe o nome da minha pequena filha?”
“Tenha uma boa noite”.
Ali mesmo, num tempo compreendido entre os devaneios deste personagem que se pretende ser o protagonista, mesmo sendo tão apático e inexpressivo e tão destituído de mundo interior, três homens bem trajados subiram ao coche. Bêbados. Pediram para ir ao bar mais próximo e quando ouviram falar da filha daquele homem:
“Se donzela ela for.... Eu sei do que ela precisa” – disse um dos homens, bêbado, e com um forte sotaque alemão, cantarolando um discurso artificialmente poético.

Os três riem e nosso homem não chora. Cala. Um pai odiado, lamentável, que não entende o porquê de tanto ódio contra ele. Está ali, a trabalhar sem motivo, vendo as lascívias da noite, vendo as injustiças escuras.

“Boa noite” – Era uma senhora ultrapassada, com cara mimosa, porém de feições duras. Anunciou aonde desejava ser entregue.
“A menina tem dezoito, sabe? Se chama Arabela, e é realmente muito bonita, sabe? A mãe sempre quis que a gente chamasse nossa pequena assim. Ela morreu há dois anos. Ela, digo, a mãe. A mãe da minha menina”.

A carroça pulava com exagero por entre as pedras. Parou e logo seguiu, rápida por entre o vento frio da noite.

“Não sei, daí, o que me deu ontem. Foi como se eu estivesse fora de mim. Ela voltou para casa tarde, mais tarde ainda do que eu. Eu estava dirigindo essa velha carroça, sabe? Ela saiu com aquela amiga, veio de vestido novo e cara borrada. Só puta pinta a cara daquele jeito. E ela não estava horrível por parecer uma puta. Ah, não. Na verdade, ela parecia uma mulher rica. Ah, como isso me causou dor. Uma rica. Ah. Me descontrolei, sabe? Isso sempre acontece, eu acho. Não sei o que me deu. Perdi o controle. Assim foi com a mãe dela. Teve uma noite em que eu perdi o controle”.

Aliviado – depois de contar sua angústia, depois de sua confissão – ele não conseguia mais lembrar se havia parado para a senhora descer ou se ela ainda estava no banco, ali atrás, o escutando. Como resposta, sentiu apenas o vento gelado em seu pescoço. E continuou:

“Eu já falei como Arabela sorria?... e, ah, como ela era feliz... como...”.
Ele seguiu, ainda mais veloz, com os negros cavalos puxando a carroça. Falava da filha, dirigia e sentia muito frio. Ele falava, falava... E optou, depois de forte resistência, não olhar para o banco de trás.
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Acho que escrevi esse conto há uns três anos, talvez quatro, e o achei escondido numa gaveta, dentro de um saco plástico. Imediatamente lembrei de um comentário feito sobre ele, na época em que algumas pessoas o leram. Disseram que o conto era bom, mas que podia se passar numa geografia mais "nossa", talvez mais brasileira, mais gaúcha.
Não sei o que me motivou a escrever um conto tão antigo e com uma geografia que muito provavelmente é a européia, mas lembro que ao iniciar esta histórinha, eu desejava fazer um conto sutil. Um algo sem a expressão direta de nada. E lembro também que eu fui "inspirado" por um conto do Tchekhov, chamado Angústia - Para quem contar minha tristeza? Talvez até seja um caso de pastiche; vou reler o Tchekhov para descobrir.