sexta-feira, abril 20, 2007

Você quer rebelar-se contra a sociedade?

Decidido a aumentar minha carga de literatura contemporânea, já que a maioria dos autores que leio são da primeira metade do século XX para baixo, comecei a ler "Casei com um comunista", do norte-americano Philip Roth. O cara é ótimo, e fico feliz por ter lido apenas três livros dele. Assim, sei que ainda terei o prazer de ler muitos outros.
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Estou no início ainda, mas espiando o final aleatóriamente, encontrei um pequeno trecho que me chamou a atenção. O trecho era: (...) Você quer rebelar-se contra a sociedade? Vou lhe dizer como fazer isso: Escreva bem". Fechei o livro e fiquei pensando em que implica essa sentença em 2007. O que é rebelar-se contra a sociedade hoje? E, obviamente, fiquei decepcionado com a resposta.
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Hoje, quando vejo adolescentes ou jovens adultos se rebelarem não vejo muita coisa. Vejo uma típica rebeldia sem muito propósito. Vestimentas para chamar a atenção, um falso não-estilo, uma falsa não-preocupação, vejo uma ode a não-responsabilidade, pois toda a responsabilidade é uma prisão, vejo preconceitos, recalques, palavras e atitudes obstinadamente opostas a tudo o que for vigente. A obstinação em crer e seguir tudo aquilo que é vigente é tão burra e cega quanto a obstinação em descrer e não seguir tudo aquilo que é vigente.
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Esse comportamento não é nada. Hoje, isso não é droga nenhuma. Hoje, rebelar-se contra a sociedade (já que para alguns isso parece tão importante) é simplesmente pensar. É simplesmente ler. E como diz o personagem de Roth: Escrever bem. Ninguém pensa no século XXI, ninguém fala, todos só reproduzem. Não vejo nada na rebeldia de hoje. Ela também é reprodução.
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Trecho integral:
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"Arte como arma? - disse ele, a palavra "arma" carregada de desprezo e ela mesma como uma arma. - Arte como a tomada da posição correta com relação a tudo? Arte como o advogado das coisas boas? Quem foi que ensinou tudo isso a você? Quem ensinou que arte são slogans? Quem ensinou que a arte está a serviço do povo? A arte está a serviço da arte, senão não existe arte nenhuma digna da atenção de ninguém. Qual é a razão para escrever literatura séria, senhor Zuckerman? Derrotar os inimigos do controle de preços? A razão para escrever literatura séria é escrever literatura séria. Você quer rebelar-se contra a sociedade? Vou lhe dizer como: Escreva bem. Quer abraçar uma causa perdida? (...) Então lute pela palavra. Não a palavra bombástica, a palavra inspiradora, não a palavra pró-isso e anti-aquilo, não a palavra que alardeia para as pessoas respeitáveis que você é um sujeito maravilhoso, admirável, compassivo, sempre do lado dos oprimidos e humilhados. Nada disso, lute sim pela palavra que afirma aos poucos alfabetizados condenados a viver na América, que você está do lado da palavra".

2 comentários:

Anônimo disse...

O Roth é demais sim, e vale a pena passar a ler literatura contemporânea. Fica 1 ano lendo só a literatura produzida pós anos 90 e tu ressurgirá outro leitor. Quanto a juventude, deixe-os, é pura estética, e em breve eles amadurecem. Nem todos.

Camilo Cienfuegos disse...

Boa. Abs