Ele repassou mais uma vez o trajeto irregular que fazia todas as noites e com um ódio que provavelmente não era capaz de perceber, disfarçado debaixo de uma quase confortável aparência de desânimo, saiu do hotel barato rumo a uma noite fria e insolitamente escura. Onde estaria ela?, perguntava-se.
Subiu a carroça, assoviou para os cavalos com breve respeito e ajeitou o longo casaco de lã sobre as pernas. Seguiu até parar na frente de um hotel de luxo; daqueles que mesmo ao olharmos de perto parecem fazer parte de uma altiva fotografia em sépia. Parou ali, por hábito ou por obrigação ou será que os hábitos não se tornam obrigações? Parou e se fazia a mesma pergunta. A mesma concreta pergunta. Sentia algo impalpavelmente doloroso, mas era ignorante demais para realmente compreender a dor. O mundo não era um apelo a sua imaginação. Onde estaria ela?, perguntava-se.
Distraído com a massa concreta de seus sentimentos e tentando explicá-los com o seu ínfimo vocabulário filosófico, assustou-se quando percebeu um passageiro subir. Deu-lhe boa noite, e o homem de barba ruiva respondeu, em tom alegre. Apenas.
Apenas. E o silêncio-só começou a incomodar este senhor que pouco usava as palavras, pois pouco as conhecia. Falou, dirigindo-se ao passageiro-barba-ruiva, da noite, da lua, do frio e da filha. A filha, ali, entre o trivial, entre o frio e a lua. O passageiro logo caiu na apatia das viagens de veículo. Alguma pequena parte de sua atenção estava voltada para o cocheiro e talvez depois ele se lembrasse que o homem falava grosseiramente da maldita moça que colocara no mundo. Como a criou com cuidados extremosos, sempre mais do que suficientes.
“Vou descer aqui mesmo, chefe” – disse o passageiro de barba ruiva quando a carroça parou perto de uma rua escura, onde a única iluminação se encontrava em uma grande e ruidosa casa de três andares.
“Sabe o nome da minha pequena filha?”
“Tenha uma boa noite”.
Ali mesmo, num tempo compreendido entre os devaneios deste personagem que se pretende ser o protagonista, mesmo sendo tão apático e inexpressivo e tão destituído de mundo interior, três homens bem trajados subiram ao coche. Bêbados. Pediram para ir ao bar mais próximo e quando ouviram falar da filha daquele homem:
“Se donzela ela for.... Eu sei do que ela precisa” – disse um dos homens, bêbado, e com um forte sotaque alemão, cantarolando um discurso artificialmente poético.
“Se donzela ela for.... Eu sei do que ela precisa” – disse um dos homens, bêbado, e com um forte sotaque alemão, cantarolando um discurso artificialmente poético.
Os três riem e nosso homem não chora. Cala. Um pai odiado, lamentável, que não entende o porquê de tanto ódio contra ele. Está ali, a trabalhar sem motivo, vendo as lascívias da noite, vendo as injustiças escuras.
“Boa noite” – Era uma senhora ultrapassada, com cara mimosa, porém de feições duras. Anunciou aonde desejava ser entregue.
“A menina tem dezoito, sabe? Se chama Arabela, e é realmente muito bonita, sabe? A mãe sempre quis que a gente chamasse nossa pequena assim. Ela morreu há dois anos. Ela, digo, a mãe. A mãe da minha menina”.
A carroça pulava com exagero por entre as pedras. Parou e logo seguiu, rápida por entre o vento frio da noite.
“Não sei, daí, o que me deu ontem. Foi como se eu estivesse fora de mim. Ela voltou para casa tarde, mais tarde ainda do que eu. Eu estava dirigindo essa velha carroça, sabe? Ela saiu com aquela amiga, veio de vestido novo e cara borrada. Só puta pinta a cara daquele jeito. E ela não estava horrível por parecer uma puta. Ah, não. Na verdade, ela parecia uma mulher rica. Ah, como isso me causou dor. Uma rica. Ah. Me descontrolei, sabe? Isso sempre acontece, eu acho. Não sei o que me deu. Perdi o controle. Assim foi com a mãe dela. Teve uma noite em que eu perdi o controle”.
Aliviado – depois de contar sua angústia, depois de sua confissão – ele não conseguia mais lembrar se havia parado para a senhora descer ou se ela ainda estava no banco, ali atrás, o escutando. Como resposta, sentiu apenas o vento gelado em seu pescoço. E continuou:
“Eu já falei como Arabela sorria?... e, ah, como ela era feliz... como...”.
Ele seguiu, ainda mais veloz, com os negros cavalos puxando a carroça. Falava da filha, dirigia e sentia muito frio. Ele falava, falava... E optou, depois de forte resistência, não olhar para o banco de trás.
---------------------------------------------
Acho que escrevi esse conto há uns três anos, talvez quatro, e o achei escondido numa gaveta, dentro de um saco plástico. Imediatamente lembrei de um comentário feito sobre ele, na época em que algumas pessoas o leram. Disseram que o conto era bom, mas que podia se passar numa geografia mais "nossa", talvez mais brasileira, mais gaúcha.
Não sei o que me motivou a escrever um conto tão antigo e com uma geografia que muito provavelmente é a européia, mas lembro que ao iniciar esta histórinha, eu desejava fazer um conto sutil. Um algo sem a expressão direta de nada. E lembro também que eu fui "inspirado" por um conto do Tchekhov, chamado Angústia - Para quem contar minha tristeza? Talvez até seja um caso de pastiche; vou reler o Tchekhov para descobrir.
2 comentários:
Vem cá, tu já lia o Dostoiévski nessa época? Porque a influência é absurda. E olha que eu só li o Crime e Castigo.
Sutil.... Poderia passar assim sorrateiro como uma noite fria e úmida, não fôsse a sensibilidade gritante que possui....
Postar um comentário